Ferreirinha, a Senhora do Douro

História e Curiosidades

2015-02-12

Conhecida como empresária, santa e mãe de pobres…. Dona Antónia Adelaide Ferreira ou Ferreirinha é uma das grandes personalidades que marcaram a região vinícola do Douro e a história da produção de Vinho do Porto. Nascida na Régua em 1811, esta mulher visionária, detentora de dezenas de quintas na região do Douro, nunca colocou de parte o seu lado mais humano, lutando sempre pelos mais necessitados e pelas suas causas. Conheça esta figura incontornável da História de Portugal e inspire-se...

Ferreirinha: mulher amada pelo Douro

 

Esta senhora do Douro, membro da família Ferreira, foi apelidada de Ferreirinha. Nome carinhoso, que lhe foi atribuído pelas gentes desta região. Esta alcunha entranhou-se de tal forma que assim chegou até aos nossos dias, fazendo quase que esquecer o seu nome, D. Antónia Adelaide Ferreira.

 

Pessoa de forte carácter e personalidade, todos gabam a sua generosidade e a forma como assumia as suas responsabilidades de duriense e cidadã. Enfrentou as pragas da vinha, as más colheitas ou a queda de preços. Para além disso, a Ferreirinha acudia sempre aos que necessitavam, aos seus trabalhadores e lavradores do Douro. Foi, ainda, responsável pela construção do Hospital da Régua.

 

Penso que concordará comigo se disser que a Ferreirinha é exemplo de integridade, civismo e do espírito trabalhador e esforçado que sempre pairou sobre a população portuguesa até mesmo aos nossos dias.

 

 

Uma vida dedicada ao Douro

 

De uma enorme energia, a Ferreirinha chegou a administrar cerca de duas dezenas de quintas. Eram das mais famosas da região. Investiu, também, em novos terrenos em zonas até aí não exploradas e fora da então área da Região Demarcada do Douro. Foi, durante anos, a maior exportadora de Vinho do Porto e permanece na História como uma das maiores empresárias Portuguesas.

 

Está tão curioso como eu para saber os detalhes desta história inspiradora?

  

A Ferreirinha casou duas vezes. O primeiro casamento foi com o seu primo direito, António Bernardo (fica a questão: estaria a família Ferreira a tentar evitar que estranhos entrassem para a família?). Mas do seu segundo casamento, embora não fosse muito estável, nasceram os 3 filhos da Ferreirinha: Maria d’Assunção, António Bernardo Ferreira e Maria Virgínia (que faleceu ainda na infância).

 

Ficando viúva em tenra idade (33 anos), Dona Antónia decidiu investir no negócio da família: vinhas e Vinho do Porto. Mas enfrentou tempos difíceis... Durante parte do seu “reinado”, as vinhas foram atingidas por uma peste que foi considerada o maior flagelo que se abateu sobre o Douro, provocando a sua quase total destruição. Esta praga tinha o nome de filoxera, uma doença provocada por um inseto que sugava, secava e matava as raízes das videiras. Crê-se que chegou à Região do Douro por volta de 1868. 

 

Assim que detetada esta terrível situação, que estava a levar o Douro rapidamente à falência, era urgente encontrar uma solução rápida e eficaz. Isto porque, já na altura, o Vinho do Porto produzido nesta Região representava um grande volume de exportações e era adorado pelo mundo. Este vinho não podia deixar de ser produzido.

 

E, então, eis que surge a mulher forte e determinada com quem o Douro pôde sempre contar… A Ferreirinha rumou a Inglaterra (o maior recetor de Vinho do Porto), no sentido de procurar uma solução para o problema. E de facto, trouxe não só a solução para exterminar esta praga devastadora, como também importou alguns dos procedimentos ingleses mais inovadores da área vinícola.

 

 

Para além da praga...

 

Para além do terrível período da peste nas vinhas, a exportação do incomparável Vinho do Porto não teve, apenas, momentos de glória. Mesmo quando a produção vinícola não tinha mãos a medir, o vinho era transportado nos pipos de madeira até ao Porto (mais concretamente Vila Nova de Gaia) onde era armazenado nas Caves. No entanto, não havendo interesse por parte do mercado, o vinho não se vendia.

 

Não havendo escoação do produto, começaram as dificuldades por parte das famílias de lavradores durienses em manter as suas propriedades. Mas benemérita e bondosa como só ela conseguiu ser, e tentando que as quintas do Douro não caíssem nas mãos dos Ingleses, a Ferreirinha adquiriu-as uma a uma e, mais tarde, devolveu-as por preço simbólico (e, por vezes, doou-as) aos antigos proprietários.
 

Actualmente, as vinhas do Douro saudáveis e bastantes férteis - dispostas em socalcos - desenham uma paisagem extraordinária 

 

Depois da morte... a imortalização

 

Aquando da sua morte em 1896, Dona Antónia deixou uma avultada fortuna e cerca de 30 quintas vinícolas. Quanto à então apelidada empresa “Ferreirinha”, passou a Sociedade por quotas e deu início a uma nova fase de adequação à evolução do mercado, mantendo, no entanto, as raízes de qualidade obtidas através do património único que deixou, as suas quintas. Quintas estas apoiadas pelos melhores métodos de produção vinícola, que tanto sucesso acarretaram. Ao longo do tempo, delas nasceram vinhos de excelência, rotulados com uma marca forte.

 

Todos estes valores trouxeram o vinho da Ferreirinha até aos nossos dias e foram cruciais para a continuação da produção dos grandes vinhos desta marca, bem como para a construção de um património único e de um arquivo histórico sem paralelo.

 

Entre prémios, distinções de vinhos e todas as outras tentativas de eternizar esta figura que foi fundamental no desenvolvimento do Douro e extremamente acarinhada pelas suas gentes, a RTP prestou-lhe uma merecida homenagem quando, em 2004, transmitiu uma série que retratava a sua vida, o seu trabalho e todo o seu legado.

 

Para além disso, esta Primavera será leiloada em Londres uma garrafa de Vinho do Porto Ferreira com 200 anos... Mais uma prova em como a qualidade tem vida longa.

 

Não sente uma certa vontade de ter sido parte da época da Ferreirinha e ter lá estado para, também, lutar por aquilo que é tão nosso - o Douro - , ao lado de uma personalidade tão inspiradora?

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